UM BALANÇO
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still de Isto não é um Filme, de Jafar Panahi |
1. O que esteve mal:
"Filmes sobre o mundo da política".. Quando uma pessoa lê ou ouve isto pensa mais em biopics de presidentes, sátiras políticas ou filmes sobre os bastidores desse mundo, para além de ficar com a ideia muito fomentada por aí de que a política é um mundo à parte, mas isso será outra história. Começando assim, penso que do ciclo, só dois - talvez três - são filmes sobre "o mundo da política", os últimos. Chamasse-lhe outra coisa, "Filmes sobre política", "filmes políticos", ou só "Política" e talvez tudo ficasse mais ou menos situado..
Outra das questões, agora que se sabe mais ou menos onde quer chegar este ciclo, é a inevitável "porque não outros filmes?", porquê estes? The Great Dictator, Grapes of Wrath, The Last Hurrah, Escape from LA, Ivan, o Terrível que são, senão filmes políticos (entre muitas outras coisas)? Enfim, Wiseman, Moretti, se se quisesse cinema mais contemporâneo (outra falácia é pensar que a actualidade só se explica ou se descreve com cinema contemporâneo)..
Mas falemos do que por lá passou. Godard, Panahi, Clooney, Uricaru, Höfer, Marculescu, Popescu, Mungiu e Ujica. Era muito produtivo tentar explicar como coexistem numa década todos estes filmes e de como o filme do Clooney parece uma completa negação política (porque, no fundo, não reflecte politicamente sobre coisa alguma do seu tempo) quando posto ao lado pelo menos dos filmes do Panahi e do Godard. Enfim, o acharem-se os filmes melhores ou piores uns que os outros é secundário, mas pensar o que significa um filme chamado Isto não é um Filme ser lançado merece algum tempo. Para isso mesmo, reflectir. Antes dos filmes, no Câmara Clara (porque não?), qualquer coisa que nos desse um indício (por mais pequeno que fosse) de alguma "política de programação"..
O Cinco Noites, Cinco Filmes acabou esta semana, o que é muito triste. Mais triste sabendo que é substituído por programas de "fácil digestão" (ou seja, curtos, que isto de ver coisas com muitos minutos parece que não é sustentável) e percebendo que pouca coisa muda na programação de filmes na RTP2: as sessões duplas de 21 e 28 de Abril são pensadas pela sua nacionalidade e pelo seu realizador, respectivamente. Nem se pedia que vissem relações entre os filmes do Kaurismaki e do Ozu, entre Oliveira e Antonioni, Hawks e Carpenter, só qualquer coisa que nos desse a impressão de que quem programa aquelas sessões tivesse visto os filmes, bastava. Eu não acredito que quem alinhou o Desassossego e o Goodnight Irene (acho que é a terceira vez que o filme lá passa) na Sessão Dupla para o próximo Sábado os tenha visto uma única vez. Porque a única coisa que uma Sessão Dupla como esta reflecte, é um autismo e um desinteresse completos por esses filmes. Pelos espectadores.
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