Quem nos subscreve

Jorge Mourinha (jornal Público): Esta insistência cívica de um grupo de pessoas que vêem algo de errado na política cultural da televisão e acham que vale a pena continuar a pugnar pelo seu objectivo explica muito bem que é este o público-alvo da RTP-2 que o canal teima em não servir como deve ser: atento, activo, interessado, fiel. Jorge Campos: o óbvio dispensa o comentário. Eduardo Paulo Rodriguês Ferreira: É um Canal do Estado. O Estado somos nós. Portanto nós exigimos uma programação. E mais, é caso para dizer: Eu pago para ver! João Mário Grilo (em entrevista ao JN): Foi na televisão que aprendi a ver cinema, com programas como "as noites de cinema". A televisão tem um papel muito importante num país onde os cinemas não estão a abrir, mas a fechar. É um direito das pessoas e um dever da televisão. Manuel Mozos (em entrevista): Há actualmente alguma programação de Cinema da RTP2? Inês de Medeiros (em entrevista ao JN): A uma petição que diz 'gostaríamos de mais' não se pode responder com contratos de concessão e tabelas mínimas. Concordo com mais cinema e penso que é importante terem atenção ao pedido, o que não quer dizer que a RTP2 não passe cinema. Paulo Ferrero (em entrevista): QUE HAJA CINEMA, do Mudo ao Digital. Vasco Baptista Marques (em entrevista): diria que a programação de cinema do segundo canal do Estado se destaca, sobretudo, pela sua inexistência. Alice Vieira (em entrevista ao JN): Para mim, cinema é no cinema, mas temos de pensar nas pessoas que estão longe do cinema por várias razões. E muitas vezes vejo-me a ir ao canal Memória para ver filmes e que aguentariam perfeitamente na Dois. A RTP2 deveria insistir mais no cinema e aí estaria a cumprir o seu papel. João Paulo Costa (em entrevista): Adoraria assistir ao regresso de uma rubrica do género "Cinco Noites, Cinco Filmes" que, há uns anos, me fez descobrir realizadores como Bergman ou Truffaut e crescer enquanto apreciador de cinema. Miguel Barata Pereira: Aprendi muito do que sei de cinema a ver a saudosa rubrica "5 noites, 5 filmes". João Milagre (em entrevista): é preciso aprender a amar. JORGE MANUEL DOS SANTOS PEREIRA MARQUÊS: Só neste paraíso político à beira-mar plantado é que se tem de pedir e justificar o óbvio,o justo,os direitos e o razoável... Eduardo Condorcet (em entrevista): Numa altura de crise é difícil compreender que a RTP2 não cumpra a sua função de serviço público, nomeadamente no que toca à produção audiovisual. LUIS PEDRO ROLIM RIBEIRO: JÁ ERA SEM TEMPO Fernando Cabral Martins (em entrevista): [A programação de cinema da RTP2] parece-me errática e é raro dar por ela. António Manuel Valente Lopes Vieira: A televisão é o cinema daqueles que não podem ir ao cinema. Que o cinema volte à televisão. Daniel Sampaio (em entrevista): A programação [de cinema da RTP2] caracteriza-se pela escassez e por não ter uma linha editorial, referente à escolha de filmes. Não se percebem os critérios de escolha. Maria Armanda Fernandes de Carvalho: e que o cinema mostrado seja do mundo e não só o chamado cinema comercial ou dos chamados autores consagrados. Deana Assunção Barroqueiro Pires Ribeiro: Cinema de qualidade é inprescindível em televisão José Perfeito Lopes: Como director do Cine Clube de Viseu, nos anos 73 a 77, vejo com mágoa o que estes senhoritos fizeram ao "canal 2". Manuel António Castro de Sousa Nogueira: Há muito e bom cinema à espera de ser exibido na RTP2, assim queiram os seus responsáveis que este canal seja efectivamente uma alternativa real à pobreza franciscana da programação dos restantes canais generalistas portugueses (incluindo, infelizmente, a RTP1). Marta Sofia Ribeiro de Morais Nunes: Como cresci a poder ter acesso ao melhor do cinema através da RTP2, quero continuar a poder crescer com ele. Maria do Carmo Mendes Carrapato Rosado Fernandes: As pessoas estão a "desaprender" de ver cinema, e isso não é bom...que regressem os ciclos de cinema, que regressem os bons filmes nos anos 30/40/50 do seculo passado, que regresse o cinema americano, japonês, europeu, que regres, se faz favor. Obrigada. Amadeu José Teixeira da Costa: Foi na RTP2 que vi cinema como nunca mais vi na minha vida. TODOS ESTES E OUTROS COMENTÁRIOS DOS NOSSOS SIGNATÁRIOS AQUI
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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ciclo "Filmes sobre o mundo da política" (II)

UM BALANÇO

Still de Film socialisme (2010) de JLG

2. O que não esteve mal:

"Filmes sobre o mundo da política". Lemos este título, do segundo (e último) ciclo do ressuscitado "5 Noites, 5 Filmes" e interrogamo-nos sobre se, por demasiado ambicioso, cairá no erro da dispersão absoluta. Não cai redondamente nesse erro, mas quase, porque, afinal, o grande desafio aqui é tentar encontrar um filme que não pertença ao mundo a que o título se refere. Se falarmos da política stricto sensu, do "combate político-partidário", um ciclo inteiro dentro da linhagem pakuliana do magnífico "Good Night, and Good Luck" iria estreitar e con-centrar mais "a mensagem". Contudo, o programador teve aqui o mérito de pôr em abismo, em cada sessão, a possibilidade de 5 ciclos possíveis sobre o totalizante - não obrigatoriamente "totalitário" - mundo da política. 

Este "mundo" desdobra-se em possibilidade, em formas, apetece dizer, entre o tal ambientadamente thriller liberal de backstage de um período negro da história política norte-americana até "Isto Não é um Filme" ou o filme-ensaio de Godard sobre o naufrágio da Europa ou o trabalho arqueológico de Ujica sobre Ceausescu ou a visão parodiada do seu terrível regime no filme omnibus chefiado por Mungiu. E, em todas estas formas, ensaia-se qualquer coisa tão desconcertante quanto a própria sensação que tivemos mal lemos o tema do ciclo: que fora do mundo da política resta pouco ou nada. 

Foi, assim, bastante feliz o programador em conciliar modelações tão distintas do "político", sem, com isso, prejudicar um mínimo de concentração de ideias que produza no espectador um pensamento crítico, um "trabalho dialéctico", ante as imagens que lhes são mostradas. Melhor, melhor, só um "Isto Não é Política" (porque, também no filme de Panahi, a dimensão-filme do filme não consegue fugir de si..) para (des)orientar e para lançar a provocação sobre o próprio acto de "programar", coisa sempre ideológica, exercício de retórica e, logo, coisa sempre "perigosa" (sim, estou a pensar em "They Live"; sim, também estou a pensar em "Videodrome"...), que, por isso, exige máxima responsabilidade e máxima reflexão.

Pena que, por regra, o programador deste canal opte pelo discurso auto-desvalorizante do próprio papel do programador, deixando-se tomar pela sua própria incoerência e pela mais lamentável incúria. "Eu não faço pensar, porque ninguém quer pensar", "Eu não sei, porque ninguém quer saber", "Eu não faço, porque não me apetece", ou outras construções do género, assim se faz a auctoritas de Jorge Wemans, o "querido líder" da RTP2. Nós, pela nossa parte, - que remédio - procuramos resistir...

Luís Mendonça 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ciclo "Filmes sobre o mundo da política" (I)

UM BALANÇO

still de Isto não é um Filme, de Jafar Panahi
1. O que esteve mal:

"Filmes sobre o mundo da política".. Quando uma pessoa lê ou ouve isto pensa mais em biopics de presidentes, sátiras políticas ou filmes sobre os bastidores desse mundo, para além de ficar com a ideia muito fomentada por aí de que a política é um mundo à parte, mas isso será outra história. Começando assim, penso que do ciclo, só dois - talvez três - são filmes sobre "o mundo da política", os últimos. Chamasse-lhe outra coisa, "Filmes sobre política", "filmes políticos", ou só "Política" e talvez tudo ficasse mais ou menos situado..

Outra das questões, agora que se sabe mais ou menos onde quer chegar este ciclo, é a inevitável "porque não outros filmes?", porquê estes? The Great Dictator, Grapes of Wrath, The Last Hurrah, Escape from LA, Ivan, o Terrível que são, senão filmes políticos (entre muitas outras coisas)? Enfim, Wiseman, Moretti, se se quisesse cinema mais contemporâneo (outra falácia é pensar que a actualidade só se explica ou se descreve com cinema contemporâneo)..

Mas falemos do que por lá passou. Godard, Panahi, Clooney, Uricaru, Höfer, Marculescu, Popescu, Mungiu e Ujica. Era muito produtivo tentar explicar como coexistem numa década todos estes filmes e de como o filme do Clooney parece uma completa negação política (porque, no fundo, não reflecte politicamente sobre coisa alguma do seu tempo) quando posto ao lado pelo menos dos filmes do Panahi e do Godard. Enfim, o acharem-se os filmes melhores ou piores uns que os outros é secundário, mas pensar o que significa um filme chamado Isto não é um Filme ser lançado merece algum tempo. Para isso mesmo, reflectir. Antes dos filmes, no Câmara Clara (porque não?), qualquer coisa que nos desse um indício (por mais pequeno que fosse) de alguma "política de programação"..

O Cinco Noites, Cinco Filmes acabou esta semana, o que é muito triste. Mais triste sabendo que é substituído por programas de "fácil digestão" (ou seja, curtos, que isto de ver coisas com muitos minutos parece que não é sustentável) e percebendo que pouca coisa muda na programação de filmes na RTP2: as sessões duplas de 21 e 28 de Abril são pensadas pela sua nacionalidade e pelo seu realizador, respectivamente. Nem se pedia que vissem relações entre os filmes do Kaurismaki e do Ozu, entre Oliveira e Antonioni, Hawks e Carpenter, só qualquer coisa que nos desse a impressão de que quem programa aquelas sessões tivesse visto os filmes, bastava. Eu não acredito que quem alinhou o Desassossego e o Goodnight Irene (acho que é a terceira vez que o filme lá passa) na Sessão Dupla para o próximo Sábado os tenha visto uma única vez. Porque a única coisa que uma Sessão Dupla como esta reflecte, é um autismo e um desinteresse completos por esses filmes. Pelos espectadores.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ciclo "O Mundo perdido da adolescência" (II)

UM BALANÇO

Still de "Let the Right One In" de Tomas Alfredson

2. O que podia ter estado melhor:

Como muitos espectadores notaram logo que viram a programação deste ressuscitado "5 Noites, 5 Filmes", apesar de tudo o que o João Palhares aponta no seu balanço, a verdade é que a direcção da RTP2 continua na mesma. Faz ciclos como quem prepara "roupa velha" com as sobras do jantar de ontem, mais concretamente, passa e, nalguns casos, repassa filmes que já toda a gente viu ou pôde ver ou na RTP1 ou na própria RTP2. A maioria dos filmes exibidos na primeira semana (que é a penúltima...), dedicada ao "Mundo perdido da adolescência" - bom título, bom tema... -, já tinha passado antes na televisão pública. Os espectadores sabem isso e, mesmo que não os tenham visto, é como se tivessem - talvez seja um pouco como vender carros em segunda mão... 

De qualquer modo, foi interessante ver como um filme sueco de vampiros consegue dialogar com a catástrofe existencial de um "Afterschool" - falei em catástrofe porque me lembrei de uma das ausências mais sentidas neste ciclo: Gregg Araki, autor de uma trilogia sobre o mundo apocalíptico da adolescência... Com efeito, a adolescência fica órfã aqui dos seus principais pais cinematográficos: falei de Araki, mas podia falar de Larry Clark ou Gus Van Sant. Não digo que seja possível fazer-se um ciclo sem excluir obras essenciais, só digo apenas que programaticamente, por exemplo, um "December Boys" é uma escolha tão insólita quanto inadequada, face às ausências de peso. Também se perdeu uma grande oportunidade de recuar mais no tempo e abordar alguns grandes clássicos sobre "o elogio (no sentido de "eulogy") da adolescência". Lembro-me dos rostos de James Dean e no cinema de Nicholas Ray e vejo uma pungente "dor de crescer" - era interessante convocar o presente e o passado, isto é, não nos limitarmos tanto ao "contemporâneo". 

Mas mesmo mantendo as escolhas de Wemans, continuo a sentir que todos ganharíamos, digo, que o PAÍS GANHARIA, se o senhor director colocasse alguém que saiba pensar o cinema, de forma provocadora e instrutiva, a contextualizar cada obra, a ensinar-nos a formar o pensamento com base nas imagens e não a fazer-nos ingeri-las apressadamente, como se faz hoje com quase tudo, das pipocas à Arte. 

Todavia, para que este regresso do "5 Noites, 5 Filmes" fosse, de facto, um acontecimento assinalável da televisão e da cultura nacionais, tinha este de ser um comeback a sério e não uma visita de médico que pouco ou nada acrescenta à paisagem audiovisual portuguesa - é que nem dá tempo para se fazer notar ou, muito menos, para "criar públicos"... E era preciso que o senhor Jorge Wemans fosse um programador que soubesse o que é programar cinema. O que nunca foi, não é e dificilmente algum dia será...

Luís Mendonça 

domingo, 8 de abril de 2012

Ciclo "O Mundo perdido da adolescência" (I)

UM BALANÇO


1. O que não esteve mal:

Antes de mais, comece-se pelo óbvio, que é a ressuscitação (em altura delas) do "Cinco Noites, Cinco Filmes", com direito a logo e a publicação informativa que contextualiza a programação e as escolhas. Dois ciclos temáticos, um sobre a adolescência ("O mundo perdido da adolescência" é o título) e outro sobre política ("Filmes sobre o mundo da política", título menos inspirado); No final desta semana, falamos então do primeiro ciclo, que lançou o mote para se exibir filmes como La Journée de la Jupe, com a sempre bela Isabelle Adjani, Let the Right One in e Afterschool. Alguns já lá passaram mas nunca lhes foi permitido dialogar uns com os outros, que é o que os ciclos temáticos fazem pelos filmes. Assim, assistimos às tensões familiares, escolares e sociais contemporâneas da adolescência, pelos olhos de cinco cineastas, o que permite fazer exercícios de comparação entre eles. Comparação que nos deixa perceber como anda o tratamento (ou a representação) da juventude em cinema, se há demagogias, se não há, etc etc.

À excepção do último filme do ciclo, December Boys, os formatos originais foram respeitados, o que não é mau - os actores estão em dado sítio do plano por alguma razão, e ignorar isso é como não passar o filme. Não eram precisos, necessariamente, filmes contemporâneos para explicar a contemporaneidade da adolescência, podia ser interessante fazer um ciclo temático desta natureza mas com a evolução da representação da adolescência (de Zéro de Conduite a Tracey Fragments, escolhas não faltavam), mas saúdo ainda assim a RTP2 por mostrar um mínimo interesse pelos filmes que programa e os situar num tempo, num espaço e numa sociedade.

sábado, 24 de março de 2012

As sessões diárias de cinema voltam à RTP2 com o novo "5 Noites, 5 Filmes"


A partir do próximo dia 2 de Abril, a RTP2 volta a exibir regularmente cinema num espaço que recupera um nome com história: "5 Noites, 5 Filmes".

Esta é uma grande vitória para os perto de 3000 subscritores da Petição pelo Regresso da Exibição Regular de Cinema à RTP2 que deve ser partilhada por todos, sobretudo, como prova da força, independência e capacidade de mudança da opinião pública. 

Poderá ler mais no blogue CINEdrio, através deste link.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O que a RTP2 podia mostrar: Campos , Erice, Zurlini e Bene


Acompanhando uma petição que vejo de crucial importância para a revitalização e formação dos novos públicos no cinema português, tenho visto este blogue, que desde o início a acompanha, a estabelecer paralelamente um caminho sólido de informação e de contextualização e, pela recolha da maior diversidade possível de testemunhos, justificando regularmente a pertinência da petição entre as várias posições.

Neste percurso, a validade das várias propostas acerca do que poderia ser mostrado pela RTP2, sempre me pareceu francamente propositada. É do meu dever fazer coro às vozes que clamam por Stroheim, Mozos, César Monteiro, Ozu, Costa, Rivette, Hsien, pelas fases televisivas de Fassbinder, Bergman, Godard ou Rossellini, e por aí fora....

E perante o estado reconhecível da selecção do canal, é-me difícil ser sucinta no acto de nomear autores que escapam à atenção da RTP2.

Parece-me que o cinema português deveria ser o primeiro interesse da programação do canal ainda que ( segundo tenha lido depois dos esclarecimentos obtidos pelos peticionários na primeira ida à Assembleia), não possa haver qualquer tipo de proteccionismo na lei da televisão a partir da entrada na comunidade europeia.

Julgo imperioso nomear de imediato a  importante e esquecida obra do documentarista António Campos (1922-1999), que deu em Portugal alguns dos primeiros passos na solidificação do filme etnográfico.  A sua filmografia, que vai do final da década de 1950 ao início da década de 1990,  num trabalho pouco reconhecido pelo público e maioritariamente auto-financiado, mantém-se circunscrita a exibições pontuais em contextos de festivais, e ausente a edições comerciais.

Parece-me fundamental sublinhar o nome do espanhol Víctor Erice, cuja filmografia, apesar de escassa, não deixa de ser de vital importância. Ainda que ficções,  filmes como “O Espírito da Colmeia” ou “O Sul” constituem-se como representações da história de Espanha, e do próprio percurso de Erice enquanto realizador, cujo método de trabalho se distingue pelos vários anos que espaçam os filmes.

Valerio Zurlini será, certamente, o mais poderoso dos realizadores italianos. Uma obra demarcada pelo intimismo distinto em que constrói personagens e transfigura os espaços à medida do seu traçado psicológico, encontra em filmes como “La prima notte di quiete” (Outono Escaldante) ou "Estate violenta" (Verão violento), eloquentes exemplos de uma mestria inesgotável, que merece receber uma atenção renovada.


O cinema de Carmelo Bene talvez seja, em Portugal, uma das facetas mais desconhecidas deste também dramaturgo, actor e encenador. A delirante energia que Bene transporta no seu cinema, resulta no fulgor de uma encenação única, alheia a princípios de realidade e perto de um patamar do histérico e do grotesco. Um cinema crítico e desconstrutivo, próximo em indisciplina do fôlego que foi permanente à obra de César Monteiro.


Extracto de "Nostra Signora dei Turchi" (1968) de Carmelo Bene

Sabrina Marques

quinta-feira, 17 de março de 2011

O que a RTP2 podia mostrar: Carné

Porque há mais cinema francês para além do repetitivo da Nouvelle Vague e dos Cahiers du Cinéma, e porque Marcel Carné é para mim a essência do cinema francês, uma RTP2 que se preze por exibir Cinema na sua forma mais pura deve exibir Carné, de preferência com Jean Gabin e Michèle Morgan, um par de actores de tal estirpe e empatia com o público que é incompreensível ver como as novas gerações de telespectadores se mantêm ignorantes de «Le Jour se Lève» ou «Quai des Brumes», por exemplo. Além do mais, quem nunca experimentou ser um de «Les Enfants du Paradis», lá do alto de um qualquer 2º balcão não sabe o que é ver Cinema num Cinema.



Paulo Ferrero

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O que a RTP2 podia mostrar - Flynn

Voltamos! John Flynn é um desconhecido em Portugal; aliás, até no seu país de origem o é um bocado. Morreu em 2007 e foi recentemente lembrado e reavaliado pela revista FOCO. Entre as suas obras contam-se Rolling Thunder, tão bom como qualquer Peckinpah, que é residente e repetente na RTP2 há anos e anos (quantas vezes se exibiu o Wild Bunch no canal?), e Best Seller, uma pérola perdida no tempo, provavelmente a sua obra-prima. 

Artesão que vivia para os seus actores e para as suas personagens, Flynn realizou o único filme com o Steven Seagal que é suportável (Out for Justicee um dos melhores "veículos" de Stallone, Lock Up. Escondia-se humildemente atrás das câmaras como ninguém faz hoje, e olhar para um filme de Flynn é olhar também para o trabalho de actores, de directores de fotografia, de técnicos variados, é olhar para uma equipa que ganha vida e significado pelo amor que Flynn tinha à arte de filmar. Mise en scène é uma expressão já gasta, mas é precisamente isso.

Na ressaca das teorias do autor, Rivette e Godard sentiam-se defraudados e incompreendidos. Rivette disse até que queria passar a trabalhar a um nível de "apagamento do autor". Flynn é, parece-me, o epítome de tal expressão.


Trailer de Best Seller (1987)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Reis e Mozos

António Reis e Manuel Mozos (que apoia a nossa petição), injustiçados por televisões, produtoras e distribuidoras. Tenho pouco orgulho em dizer que vi apenas um filme de cada um, no caso de Reis foi Jaime e no caso de Mozos foi 4 Copas. O primeiro é um assombro de filme, único filme assinado apenas por Reis (os outros são co-assinados pela mulher, Margarida Cordeiro), e o segundo é a alternativa perfeita a Call-Girl's e outras manifestações "populares" de cinema e televisão, em Portugal.

Desconstrua-se o termo popular (a coisa não se finda em pipocas e bilheteira) e encontramos Reis e Mozos. Não há nada de mais popular, ou do povo, do que as suas obras, Trás-os Montes é um retrato "documental" da população do distrito, que, permitam-me acrescentar, foi produzido pela RTP, e 4 Copas é um retrato "ficcional" da juventude, da família, das relações citadinas contemporãneas, em sociedade.

Até há uns dias, Manuel Guimarães era também um destes cinastas esquecidos e negligenciados por injustiças de produção e distribuição. E já que falo disto, não há uma cópia decente do seminal Verdes Anos, de Paulo Rocha, para quando o seu restauro e a sua edição em DVD? É que é um filme importantíssimo para compreender o nosso Cinema, a nossa história, é um crime e um atentado nada se fazer para o difundir, e sim, é coisa que passa também pela televisão, necessariamente.

Destino igual parece estar reservado a Xavier, que se diz ser a obra-prima de Manuel Mozos. Acho triste escrever este post motivado pela ignorância, mas é isso mesmo, a RTP2 podia mostrar Reis e Mozos pela simples razão do seu desconhecimento generalizado, eu quero ver os seus filmes, e como eu, acredito, haverá outros. Façam-nos esse favor.



domingo, 14 de novembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Melville

Conheci Jean-Pierre Melville através do Canal Hollywood. Lá passou Le Cercle Rouge (1970), magnifico misto de heist movie com filme de perseguição policial. Achei-o estranho, de inicio, pois apesar de tudo transpirar a contemporaneidade do seu tempo, ao mesmo tempo os gangsters vestiam-se como os dos filmes dos anos 40, Alain Delon usava um bigode esquisito e muito se passava à volta de cabarets mais dignos de um noir americano do que dos cafés que víamos na Nouvelle Vague. É assim, o mundo de Jean-Pierre Melville, num cruzamento entre a modernidade do seu tempo (o cineasta pode, ainda que por vias travessas, ser inserido não tanto na Nouvelle Vague francesa, de que pouco se aproxima, mas em todo o movimento de modernização do cinema no pós-guerra, da Europa ao Brasil, passando pelo Japão e pela Índia) e a re-utilização de referências cinematográficas norte-americanas clássicas, num todo intrinsecamente autoral e, em boa verdade, imensamente influente: sem ele não haveria nem toda a tradição do polar (policial francês) nem tão pouco o cinema de John Woo, que nas suas histórias de códigos de honra e de irmãos inimigos encontrou o seu leit motiv.



Porém, cineastas a filmar gangster e códigos de honra há muitos, e poucos atingiram o nível de Melville. Por dois motivos. Primeiro, porque poucos têm o rigor na mise en scene que Melville tinha. Pegando no genial L’Armée des Ombres (1969), que filma uma célula da Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial, vemos uma austeridade que, quiçá com exagero e com a noção das devidas diferenças estéticas, só encontramos em Bresson. Em segundo, porque a Melville interessava o lado litúrgico, ritualizado, codificado, se perdoarem o pleonasmo, que torna os seus filmes quase coreográficos. Não por acaso, uma das melhores sequências da sua carreira é a do assalto em Le Cercle Rouge, do mesmo modo que só esta componente ritualística permite sustentar os primeiros vinte minutos do tremendo Le Samourai (1968), completamente silenciosos. Ver Melville explanar o seu universo é como assistir a um relógio a funcionar por dentro, as rodas e as engranagens encaixando umas nas outras e maravilharmo-nos com o engenho que o permite.



Dvd, só edições estrangeiras, quase sempre caras. Na tv, passou no cabo há uns anos valentes. A escolha que sobra é o download ilegal. A não ser que…

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Stroheim

Diz-se que Stroheim era tão obcecado com o detalhe que um dia foi detido por falsificação de dinheiro que este queria usar como adereço num dos seus filmes. Stroheim queria que o dinheiro no filme fosse o mais parecido possível com o dinheiro na vida real. E, provavelmente, o próprio Stroheim-actor não era muito diferente do Stroheim-realizador: narcísico, prepotente, canalha e um autêntico "destruidor de lares". No díptico escandaloso, no seu tempo e talvez um pouco ainda hoje, "Blind Husbands" e "Foolish Wives" temos o senhor Stroheim, em pose de marechal, a arruinar casamentos perfeitos com o despudor e o cinismo do maior dos canalhas.

Os seus alter-egos variam pouco entre os dois filmes que, no fundo, têm títulos intercomunicantes: até digo que, hoje, "Blind Husbands" é mais sobre "Foolish Wives" que outra coisa, mas o contrário também vinga! O que mais nos espanta hoje é esta espécie de anti-heroísmo metafílmico, ultra-irónico, que vem desafiar as barreiras da moralidade, sobretudo, da moralidade da Hollywood que aí vinha - a dos códigos de decência.

Stroheim foi um dos maiores cineastas do mundo, sempre polémico e, como disse, demencial nos seus simulacros folhetinescos à imagem... da Vida - reproduzi-la em estúdio com fidedignidade, convenhamos, sai muito muito caro. Stroheim dirigiu Gloria Swanson em "Queen Kelly" e afundou-se comercialmente com o monumental "Greed". Depois tornou-se num fantasma do Mudo, que nesta ou naquela obra-prima ("Sunset Boulevard" e "La grande illusion") saiu da escuridão para dar corpo a personagens assombradas.

César Monteiro será, porventura, o maior cultor da truculência irónica e ultrajante do velho Stroheim. Seria interessante dar a pensar o seu cinema no pequeno ecrã de uma qualquer estação pública digna desse nome.


"Foolish Wives" (1922) de Erich von Stroheim

"Recordações da Casa Amarela" (1989) de João César Monteiro

Luís Mendonça

domingo, 10 de outubro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Hsien

Hou Hsiao-Hsien é, em França, o paradigma do autor cinematográfico, visto em sala e apreciado, discutido e elogiado. Em Portugal, com apenas dois filmes estreados em sala (Três Tempos e A Viagem do Balão Vermelho, ambos em 2008), com um ou outro filme que passa de quando em vez na Cinemateca e um ciclo já com barbas efectuado na Culturgest, é o paradigma do autor moderno feito na Internet, cada vez mais o local para onde os cinéfilos se exilam. O que nos leva à seguinte questão: no presente actual da exibição cinematográfica televisiva e com os constrangimentos financeiros existentes, não será o cinéfilo forçado a cometer uma ilegalidade para chegar a certas obras? Ou deve este comer e calar, ver apenas o que lhe dão?

Uma coisa é certa: por instituições como a RTP2 não fazerem o seu trabalho, muitos nunca viram maravilhas como esta:




Miguel Domingues

sábado, 9 de outubro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Godard/Fassbinder/Bergman TV

Se faz confusão aos (falsos) puristas ver cinema na televisão, então que se passe, pelo menos, os bons filmes que grandes realizadores fizeram, de propósito, para serem mostrados no pequeno ecrã - e, já agora, que não se passe mais nada, caso esse (falso) puritanismo seja levado à letra.

O meu colega Miguel Domingues já falou dos filmes "pedagógicos" de Rossellini, recentemente editados pela Eclipse e que, como era da vontade do cineasta, estavam imbuídos de uma missão pura de serviço público - a televisão como meio para educar as massas. Rossellini foi um dos primeiros a ver na televisão uma linguagem complementar ao cinema, com potencialidades próprias e uma margem para o experimentalismo que já não se encontrava no meio fechado e (financeira, burocrática e humanamente) pesado da Sétima Arte. Seguiram-se  semelhantes incursões de grandes realizadores em ousados projectos exclusivamente televisivos (ou cinematograficamente televisivos), entre eles, Godard, Fassbinder e Ingmar Bergman.

Godard assinou, entre outras coisas, uma série reflexiva, quase ontológica, sobre o cinema, "Histoire(s) du Cinéma", que, recentemente editada pela MIDAS, só ganharia, de facto, contornos de "grande acontecimento" se fosse mostrada directamente na TV.

Fassbinder, a quem a RTP2 dedicou há pouco tempo um documentário enlatado - sem qualquer contextualização programática ou preocupação em, de seguida, dar a conhecer a OBRA do cineasta, quase desconhecida da maioria dos portugueses -, realizou vários monumentos para o formato televisivo: à cabeça, "Berlin Alexanderplatz" e "World on a Wire".

O senhor Wemans, que se diz amante de séries, não nos dirá que a relevância histórica ou temática destes objectos é menor que um "Anatomia de Grey" ou "24", séries que a RTP2 passa, pagando balúrdios e fingindo que nos outros canais não estão a passar exactamente esses mesmos "conteúdos" - palavra cara a quem se deixou embrutecer pelo marketering tecnocrata televiseiro.

Por fim, destaco o extensíssimo e profundo trabalho que Ingmar Bergman fez na televisão do seu país. Por preconceito ou ignorância, "Fanny och Alexander" foi durante anos tido como "o último filme de Bergman". Um total e completo disparate se atendermos ao facto de este ter realizado, posteriormente, mais de 10 filmes para a televisão.

O próprio "Saraband" é, para todos os efeitos, um telefilme, que só nos deve alertar para a obra que o mestre sueco andou a desenvolver desde 1982, ano em que o mundo deu como reformado um cineasta que, na realidade, apenas inflectiu (ligeiramente, na nossa opinião) o rumo da sua carreira: do terminal cinematográfico (leia-se, da indústria e da sala do cinema) para o terminal televisivo (mais barato, livre de pressões e tubo de ensaio mais que perfeito das novas tecnologias do vídeo e digital). Vi apenas "Na Presença do Palhaço", obra sobre os últimos momentos na vida de Schubert, que passou na SIC há muitos (demasiados) anos e me marcou pela pujança de uma linguagem produzida pelo encontro feliz do cinema, do teatro, da música... com a televisão.

"À televisão o que é da televisão e ao cinema o que é do cinema"... tem a certeza que ainda quer insistir, anacronicamente, nessa falácia histórico-estética?

Trailer de "Na Presença do Palhaço" (1997) de Ingmar Bergman

Luís Mendonça

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Zurlini

Portugal deverá ser um dos poucos países do mundo a ter no seu mercado de DVD parte substancial da obra do realizador italiano Valerio Zurlini. E quem é Zurlini? Um dos realizadores italianos posteriores à escola do neo-realismo que foi categoricamente ignorado ou mesmo maltratado pela crítica - espantem-se com as escassas estrelitas que um filmaço como "Estate Violenta" leva nos Cahiers du Cinéma, pelos grandes nomes da Nouvelle Vague!

Zurlini foi também incompreendido em Itália, por ser um desalinhado das novas tendências de um cinema nacional dividido, grosso modo, entre o incondicionalismo a um Antonioni versus o incondicionalismo a um Fellini. De qualquer modo, hoje, à distância - é sempre bom ganhá-la sobre tudo o que parece, ou é de facto, "desalinhado" no presente -, a sua obra ganha uma vitalidade como poucas. "A Rapariga da Mala" já é mais do que um filme de culto; é uma crónica franca, como poucas, do devir sexual/existencial de um adolescente e do objecto que o obceca - a linda de morrer Claudia Cardinale. O já citado "Estate Violenta" - anterior - cola-se a este, numa espécie de double bill perfeito, pelo sensualismo das imagens, do corpo feminino contra o masculino - o fervor do desejo com alguma história, e História, em pano de fundo...

Duas obras-primas que não estão sós na sua filmografia - que eu próprio ainda estou a descobrir, com a paciência impaciente de quem deixa para o fim a sobremesa. "Outono Escaldante", com de novo uma mulher divinalmente bela (Sonia Petrovna) e o mais cool dos actores (Alain Delon), é um poema triste sobre a dialéctica do desejo e da morte. Maravilhoso pedaço de cinema, para ouvir e absorver fotograma a fotograma, que carece de maior promoção. Promovê-lo mais seria, a meu ver, um serviço ao cinema, um serviço ao país e aos famintos cinéfilos portugueses em formação.

Ponho o "auteur escondido" Valerio Zurlini a dialogar consigo mesmo aqui:


Excerto de "Estate Violenta" (1959)


Excerto de "La prima notte di quiete"/"Outono Escaldante" (1972)

Luís Mendonça

domingo, 26 de setembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Rivette

Jacques Rivette é, talvez, o cineasta mais secreto da Nouvelle Vague. No entanto foi um dos seus mais geniais pensadores e cineastas. Como crítico, ajudou a construir a política dos autores, escrevendo duas das maiores cartas de amor cinéfilo e crítico a cineastas, a "Carta sobre Rossellini" e "O Génio de Howard Hawks".

Como cineasta, explorou a relação do Cinema com o tempo, propondo que, para hoje contar uma história, seriam precisos muito mais minutos e película. Ele ilustra esta proposta a cada novo filme, quase qualquer filme seu ultrapassa as duas horas. "Out 1", filme de 1971, dava para preencher um "Cinco Noites, Cinco Filmes", inteiro.

Outra característica cativante do cinema de Jacques Rivette é a sua relação com os actores e com as suas personagens, que herdou do seu cineasta favorito, Howard Hawks. De "Céline et Julie vont en Bateau" a Ne Touchez pas la Hache", os filmes de Rivette transmitem todo o amor que o realizador tem pelos seus personagens e pelos seus actores, a um nível de cumplicidade máximo e de um compromisso enorme ao trabalho, ao filme e à sua rodagem. Ver um filme de Rivette é ver, também, a sua rodagem e foi ele que disse isto, não fui eu...



João Palhares

sábado, 25 de setembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Ozu e Costa

Como perceber que Pedro Costa seja um fenómeno por todo o mundo, em especial, na Ásia, mais concretamente, no Japão; ainda mais concretamente, junto de cineastas como Nobuhiro Suwa ("M/other"), que, na sua passagem por Portugal, sublinhou que Costa - isto antes da sua exposição na Tate Modern ou da edição de alguns dos seus filmes pela Criterion Collection - era "matéria obrigatória" em qualquer faculdade de cinema quer no Japão, quer noutras partes do mundo - como no Canadá -; como perceber que Pedro Costa seja recebido no Japão como um herói em ano dedicado à celebração do cinema do mestre nipónico Yasujiro Ozu; como perceber isto tudo sem se fazer o contraponto entre a "Trilogia das Fontaínhas" (da Vanda) e a "Trilogia de Noriko" que Ozu realizou entre 1949 e 1953? Por um lado, "Banshun"/"Late Spring", "Tokyo Monogatari"/"Tokyo Story" (1953) e "Bakushû"/"Early Summer" (1951); por outro, "Ossos" (1997), "No Quarto da Vanda" (2000) e "Juventude em Marcha" (2006). Monumentos ao Cinema, monumentos à altura do Homem.

Não estou com isto a dizer que a obra de Pedro Costa não tenha uma força única, que dispensa qualquer legendagem contextualizadora; estou apenas a dizer que se aprecia a sua obra de outra forma tendo presente a genealogia escondida do seu cinema, que nos remete ao cinema do mestre japonês e de tantos outros grandes cineastas (a crítica fala ainda de Chaplin, Rossellini, Ford, Rouch, entre outros nomes fortes da história do cinema). Seria interessante mostrar ao povo português o trabalho que o seu maior cineasta anda a fazer no coração do Cinema, essa pátria que é de todos e que devia ser para todos.

O plano do vaso em "Late Spring" de Yasujiro Ozu, exemplo possível do chamado "pillow shot" (plano almofada), que pode ser definido, nas palavras Mark Cousins (Biografia do Filme), como todas as imagens de filmes de Ozu, "que nada têm a ver com a acção e funcionam como pausas para o espectador reflectir"


Luís Mendonça

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Shaw Bros

Em conjunto com o meu tasco, dou como exemplo de um ciclo que a RTP2 podia organizar uma séria de filmes saídos desse enorme forno que era os estúdios Shaw Bros. Deixo para o artigo explicações sobre o que era e o que fazia o estúdio, lembrando apenas que foram estes filmes que levaram Quentin Tarantino a fazer Kill Bill (2004/2005). Dado que o cartão de visita já está impresso na mente de muitos, deixo aqui cinco filmes míticos que a 2 podia mostrar. De caminho, com estes exemplos de cinema xunga, se calhar contribuiria também para pôr de lado a ideia de elitismo que, de certo modo, está associada ao canal.

E os filmes seriam:

Come Drink with me (King Hu, 1965)
The one-armed swordsman (Chang Cheh, 1967)
A Touch of Zen (King Hu, 1969)
Vengeance (Chang Cheh, 1970)
The 36th Chamber of Shaolin (Chia-Liang Liu, 1978)

Ok, pedir isto é como pedir 1 euro, ver o pedido recusado e logo a seguir pedir 1000. Se nem o mais canónico cinema tem grande repercussão na RTP2, quais são, realisticamente, as hipóteses de vermos um ciclo destes? Mas sonhar não custa. Conseguido o primeiro objectivo, os restantes viriam quando a necessidade de inovar se impusesse. Quanto mais não seja, deixem-nos sonhar.

Miguel Domingues

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Powell & Pressburger

Esta é, sem dúvida alguma, a mais importante e criativa parelha de cineastas que a curta história do cinema teve (esqueçam os Dardenne's e os Coen's), um inglês, o outro Húngaro, ambos revitalizaram, nos anos 30, o cinema britânico, à época em estado de decadência, acabando por ter nos anos 40 e 50 algumas das obras artísticas mais extraordinárias de sempre.
Com One of our Aircraft is Missing e The battle of the river Plate eles criaram um género cinematográfico, que fico conhecido como stiff-upper-lip war films, feitas em plena guerra e cheios de restrições técnicas e de financimanto, nomeadamente na questão da película; durante a guerra a película colorida era muito escassa (por isso só a parte final do Ivan de Eisenstein é colorida) o que fez com que estes filmes fossem filmados a preto e branco, assim como I Know where I'm Going, filme que ficou para a história como aquele que Scorsese escolheu para engatar a sua futura mulher, Isabella Rossellini. Mas mais que isso, é uma das visões mais românticas e elegantes (e tecnicamente mais prodigiosas) da Escócia e de toda a sua mitologia.
Também a Matter of Life and Death foi perturbado pelas questões da película, sendo por isso uma mistura belíssima de texturas (as cenas de terra a cores, as aéreas não).
Claro que falar desta dupla é falar de Red Shoes, um dos mais belos e encantatórios (e encantados) filmes de sempre, resultado de uma pureza avassaladora (que rima por vezes com New York, New York do dito Scrosese que tem nessa Obra Prima o seu filme preferido, foi mesmo Scorsese e Coppola os responsáveis pela redescoberta, nos anos 60, desta parelha, que tinha ficado meio esquecida até então).
Mas não esqueçamos Black Narcissus (com a tradução berrante: Por quem os sinas dobram) e The Life and Death of Colonel Blimp.

[Deixo só uma achega: pensar que Powell foi capaz de fazer Red Shoes e anos mais tarde Peeping Tom]




Ricardo Vieira Lisboa

domingo, 19 de setembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Mendoza

Esteve cá, graças à equipa do IndieLisboa, e mostrou toda a sua obra. Tive oportunidade de ver a maioria dos filmes e tenho-os como um sinal muito significativo da vitalidade do cinema filipino da actualidade. É que Mendoza não está só. Raya Martin e Lav Diaz são dois outros nomes muito falados, sobretudo, no circuito restrito dos festivais e que se têm agigantado nos últimos tempos.

Mendoza, o nome que recomendo aqui, surge neste contexto como o realizador mais implantado mediaticamente falando, tendo já ganho o prémio de melhor realização em Cannes pelo brutal "Kinatay" e recebido os louvores da crítica por "Lola" - também seleccionado em Veneza e filme que estreia em breve nas nossas salas - e "Serbis" - lançado em DVD no nosso país.

Ver a sua obra é mergulhar num país longínquo, culturalmente ecléctico - resultado das ocupações espanhola, norte-americana e asiática - e, logo, de uma riqueza humana e plástica sui generis. "Foster Child", um filme menos conhecido do realizador, foi o que mais me comoveu, apesar de "Kinatay" ser, de facto, a sua obra mais arrojada, conto de horror ultra-realista com uma atmosfera visual e sonora magistrais.

Uma RTP2 ciente das novas tendências do cinema internacional poderia fazer-nos embarcar nesta viagem às Filipinas, via Mendoza ou/e via qualquer um dos seus aclamados conterrâneos.

Excertos de "Kinatay" (2009) de Brillante Mendoza

Luís Mendonça

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O que a RTP2 podia mostrar: Erice

Já mereceu uma retrospectiva na Cinemateca e marcou presença no último Festival do Estoril, que também, oportunamente, lhe deu espaço para mostrar e falar da sua obra. Disse obra e muito bem, apesar do espanhol Víctor Erice - é dele que aqui falo - só ter realizado três longas-metragens em quase 50 anos de carreira. Bastava a primeira para ficarmos conversados quanto à relevância deste cineasta, que trabalha cada plano, cada som, cada sussurro como se fosse o último.

É um universo estético único que nasce com "El espíritu de la colmena" (1973), um dos segredos mais bem guardados do cinema internacional; um Frankenstein sob o efeito da (des)encantada realidade espanhola e os fantasmas da guerra civil. Um filme que respira cinema por todos os poros; tratado sobre a magia dos silêncios, da paisagem, dos rostos..., dos olhos inefáveis da pequenina Ana Torrent, que voltaria a ser filmada em "El sur" (1983).

Em "El sol del membrillo" (1992), o cineasta espanhol desafia os limites do documentário ou da ficção e mostra-nos o labor de um pintor, Antonio López Garcia. Mas a respiração das imagens é a mesma: o tempo é o grande encantamento do seu cinema. E dele nascem algumas das imagens (interiores e exteriores) mais belas de todo o cinema. Estou certo que qualquer membro da direcção de programas da RTP2 concordaria comigo.

Excerto de "El espíritu de la colmena" (1973) de Víctor Erice

Luís Mendonça